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Trabalho & dignidade

Trabalho digno é segurança pública

Por Carvalho Meireles · 24 jun 2026 · 7 min de leitura

Você já pensou que a segurança pública tem uma relação danada com o trabalho? Quando o caminho formal parece lento, mal pago e humilhante, enquanto o atalho aparece bonito, rápido e lucrativo — que tipo de sociedade a gente está construindo?

Trabalhadores em um vagão de terceira classe, ilustração de Honoré Daumier
"O Vagão de Terceira Classe", Honoré Daumier · domínio público

A primeira porta que não abre

Imagina que você acabou de completar 18 anos e está procurando o primeiro trabalho. Manda currículo, preenche formulário, faz entrevista, responde teste, espera retorno. E muitas vezes escuta a mesma frase: "você ainda não tem experiência".

Mas como alguém vai ter experiência se ninguém oferece a primeira oportunidade? E quando a pessoa finalmente ultrapassa essa barreira, o trabalho muitas vezes não vem do jeito que deveria. Vem como salário baixo, escala pesada, informalidade, humilhação e falta de reconhecimento.

44%
dos jovens ocupados de 14 a 24 anos ainda estavam na informalidade no fim de 2024.
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com base na PNAD Contínua/IBGE, 2025.

E isso não é impressão. Enquanto isso, do outro lado da tela, parece que todo mundo está vencendo: viajando, ganhando dinheiro, comprando carro, roupa, celular. Todo mundo parece ter descoberto um caminho que você ainda não encontrou.

Quando o trabalho vira humilhação

E aqui eu não estou falando só de dinheiro. Estou falando de pessoas que entram em um emprego querendo trabalhar, aprender, ganhar o próprio dinheiro, construir alguma coisa — e, em vez de oportunidade, encontram humilhação.

Já vi caso de trabalhador ser ridicularizado por causa do cheiro do corpo. A pessoa não tinha dinheiro para comprar os produtos. E aqui a pergunta não é sobre desodorante. A pergunta é: em que momento uma situação dessas virou piada? Era tão difícil chamar essa pessoa com cuidado? Era tão difícil oferecer ajuda?

Assédio moral também aparece assim. Na piada. No apelido. No comentário. No olhar de nojo. Na exclusão silenciosa.

É a forma como pessoas são tratadas como se valessem menos. E não é caso isolado.

142 mil
novos processos de assédio moral chegaram à Justiça do Trabalho só em 2025 — uma alta de cerca de 22% em relação ao ano anterior.
Fonte: Tribunal Superior do Trabalho (TST), 2026.

Esse número diz muito sobre o tipo de ambiente que muitos trabalhadores enfrentam todo dia.

Também já vi trabalhador contratado como horista para ganhar cerca de R$ 300 por mês. A pessoa pegava duas horas de ônibus para chegar e mais duas para voltar — quatro horas do dia só em deslocamento. E só era chamada para limpar o banheiro quando nenhum outro funcionário queria. Percebe? Não é só sobre salário. É sobre o recado que aquele trabalho dá: de que o tempo dela vale pouco, o corpo dela vale pouco, a dignidade dela vale pouco.

O mercado do atalho

E aí, enquanto o trabalho oferece pouco dinheiro, pouco respeito e pouca perspectiva, existem ofertas de atalho o tempo inteiro. É a bet. É o "tigrinho". É a pirâmide. É o golpe.

40 mi+
de brasileiros relataram ter perdido dinheiro com golpes digitais no período de 12 meses.
Fonte: levantamentos sobre fraudes e golpes digitais no Brasil (ver nota de fontes abaixo).

Ou seja: o discurso do atalho virou mercado. E ele disputa exatamente aquilo que o trabalho deveria oferecer — renda, pertencimento, reconhecimento, respeito e futuro.

Não estou justificando crime. Crime destrói vidas, famílias e comunidades. Mas também não adianta dizer que "dar trabalho de qualquer jeito" basta. A realidade é mais complexa, e a gente precisa ter coragem de fazer a pergunta difícil: que tipo de sociedade se constrói quando o caminho formal parece lento, mal pago e humilhante, enquanto o atalho aparece bonito, rápido e lucrativo?

"Enquanto a sociedade fecha os braços e as portas, a vida do crime sempre vai estar de braços abertos."

O que é trabalho digno, afinal

Trabalho digno não é só carteira assinada. É bem mais do que isso:

A Constituição coloca os valores sociais do trabalho e a dignidade da pessoa humana como fundamentos da República (art. 1º). Não é discurso bonito: é o alicerce do nosso pacto social. Por isso, quando a gente fala de trabalho, não está falando só de emprego. Está falando também de segurança pública e de projeto de sociedade.

Porque uma sociedade que humilha quem trabalha não pode se surpreender quando o trabalho deixa de parecer um caminho possível.

A pergunta final é essa: quando o trabalho deixa de oferecer dignidade, quem ocupa esse vazio?

Passou por humilhação no trabalho?

Se você está vivendo assédio, salário atrasado ou condição indigna, a gente te ajuda a entender seus direitos — sem juridiquês e sem compromisso. Conteúdo informativo; cada caso é um caso.

Perguntas frequentes

Piada e apelido no trabalho podem ser assédio moral?

Sim. O assédio moral não precisa de grito. Ele aparece na piada repetida, no apelido, no comentário humilhante e na exclusão silenciosa. Quando esse tratamento é repetido e constrange ou adoece o trabalhador, pode configurar assédio moral e gerar direito a indenização.

O que é "trabalho digno" segundo a lei?

Trabalho digno vai além da carteira assinada: envolve salário justo, jornada com limites, segurança, saúde física e mental, respeito e não discriminação. A Constituição coloca os valores sociais do trabalho e a dignidade da pessoa humana como fundamentos da República (art. 1º).

Fui humilhado no trabalho. O que eu faço?

Guarde provas: mensagens, e-mails, áudios e nomes de testemunhas, e registre datas e situações. Você pode buscar indenização por dano moral e, em casos graves, a rescisão indireta — sem precisar simplesmente pedir demissão e abrir mão dos seus direitos.

Fontes e referências
  1. Tribunal Superior do Trabalho (TST) — dados sobre novos processos de assédio moral na Justiça do Trabalho em 2025. Disponível no portal oficial do TST (tst.jus.br).
  2. Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a partir da PNAD Contínua/IBGE — informalidade entre jovens de 14 a 24 anos ao fim de 2024.
  3. Constituição Federal de 1988 — art. 1º (fundamentos da República: dignidade da pessoa humana e valores sociais do trabalho) e art. 5º (dano moral). CLT — art. 223-A e seguintes (dano extrapatrimonial).
  4. Dado sobre golpes digitais (40 milhões de brasileiros em 12 meses) citado a partir de levantamentos de mercado sobre fraudes no país. Recomendamos confirmar a fonte primária antes de citar publicamente.
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